Através das vacinas diversas doenças infecciosas podem ser evitadas

Descobertas há séculos, as vacinas vêm mostrando seus resultados. A primeira vacina foi fabricada para combater a doença considerada mais devastadora de todos os tempos, a varíola. Com a vacina, a doença foi erradicada na década de 80 e, assim como ela, outras doenças como a paralisia infântil e o sarampo seguem rumo à erradicação. Em entrevista à revista da Alergo ar, Dr. Mauro Treistman, Presidente da Sociedade de Infectologia do Estado do Rio de Janeiro, fala sobre a prevenção de doenças infecciosas, as quais há vacina imunizante.

Alergo ar - O sr. considera que o desenvolvimento de vacinas seguras e eficazes fez com que houvesse grande redução da incidência de enfermidades e da mortalidade?

Dr. Mauro Treistman - Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), as vacinas estão entre as maiores conquistas da humanidade. Capazes de prevenir doenças que levam a sequelas graves e morte, faz com que doenças como varíola, poliomielite e recentemente sarampo, venham se tornando doenças do passado. Nas doenças, em que não podemos pensar em erradicação, as vacinas têm importante atuação na prevenção, evitando ou reduzindo drasticamente o número de casos de crianças e adultos doentes, como no caso do tétano do adulto e neonatal.

Alergo ar - Quais são as principais doenças infecciosas que podem ser prevenidas com vacinas imunizantes? Como se caracteriza o calendário de vacinação (faixa etária, periodicidade das doses)?

Dr. Mauro Treistman - São muitas as doenças que podem ser preveníveis por imunização, sendo as principais: formas graves da tuberculose na criança (vacina BCG), poliomielite (paralisia infantil), sarampo, rubéola, caxumba, difteria, tétano, coqueluche, varicela (catapora), febre amarela, rotavírus (diarréia por rotavírus), hepatite A, hepatite B, Haemophilus b (infecções mais graves como pneumonia e meningite), meningococo (meningite), pneumococo (pneumonia), Influenza (gripe) e HPV. Algumas vacinas são conjugadas (previnem mais de uma doença) e outras administradas isoladamente. Algumas vacinas são de dose única e outras de duas ou três doses. Há vacinas que necessitam de reforço durante alguns anos e outras precisam de reforço durante toda a vida. Há vacina que se aplica somente nos primeiros anos de vida e outras só em crianças maiores, adolescentes ou adultos, sendo algumas em situações especiais, como pessoas com baixa imunidade por doença.

Alergo ar - O rotavírus é um vírus muito resistente e contagioso que atinge pessoas em toda parte do mundo e de todas as idades. Porém, são em crianças de até dois anos que ocorrem os casos mais graves. A vacinação é uma boa alternativa para prevenir a transmissão do vírus?

Dr. Mauro Treistman - Sem dúvida. A vacina contra rotavírus é de uso fácil, administrada por via oral em duas doses (2º e 4º mês de vida). Previne uma das doenças que mais causa mortes por gastroenterite no mundo em crianças menores de 5 anos de idade, sendo os casos mais graves em geral até os dois anos.

Alergo ar - A rubéola é preocupante para a gestante. Se ela adquirir a doença na fase de gestação pode passar a infecção para o feto, o que causa surdez, alterações oculares, cardiológicas, problemas ósseos e outras sequelas deixadas no bebê. Quais são as orientações que devem ser dadas às mulheres em idade fértil em relação à vacinação contra rubéola?

Dr. Mauro Treistman - A vacinação é feita com a tríplice viral a partir de 12 meses de vida com reforço entre 4 e 6 anos de idade. Campanhas de vacinação são desenvolvidas, como ação do Ministério da Saúde, para aumentar a proteção da população (homens e mulheres) contra a rubéola quando dados estatísticos indicam aumento nos casos da doença no país. Só em uma população bem protegida, não haverá mulheres adquirindo rubéola durante a gestação. A vacina tem eficácia em cerca de 95% das doses aplicadas. Ter tomado vacina nos dá uma boa chance de proteção, mas não garante que esteja imunizado. Tomar nova dose não aumentará os riscos. Desta forma, todos, incluindo as mulheres em idade fértil, devem ser vacinados e seguir a recomendação do Ministério da Saúde nas campanhas, mesmo que já tenham sido vacinados. Somente mulheres grávidas não devem receber a vacina contra a rubéola.

Alergo ar - O HPV causa câncer de cólo do útero e é uma doença sexualmente transmissível. Já existe uma vacina segura contra o vírus? Quem deve tomar a vacina, mulheres e homens?

Dr. Mauro Treistman - Este foi um dos grandes avanços recentes da ciência. Uma vez comprovado que o HPV pode induzir principalmente o câncer de colo de útero, a vacina desenvolvida se mostrou eficaz em prevenir câncer relacionado a dois tipos de vírus HPV (estes dois vírus são responsáveis por 75% destas neoplasias). As duas vacinas liberadas para uso são indicadas para pessoas do sexo feminino, com faixa etária de 9 a 26 anos de idade, pois as pesquisas iniciais foram conduzidas nesta população. Novos estudos estão em desenvolvimento e deve ser aprovado o uso para homens e para faixas etárias mais amplas, já havendo autorização para uso em homens em alguns países.

Alergo ar - Mais de 25 anos depois da identificação do vírus HIV, responsável por quase 30 milhões de mortes no mundo, a busca por uma vacina contra a infecção é contínua. Existe alguma vacina em estudo contra a Aids? Se existe, o Brasil terá acesso a esta vacina?

Dr. Mauro Treistam - Há mais de 100 estudos de vacinas no mundo contra o HIV, reunindo milhares de voluntários em mais de 20 países, com gastos próximos de US$1.000.000,00 ao ano. Apesar de todos estes esforços e dos avanços até agora alcançados, ainda não há previsão de quanto tempo ainda teremos que aguardar para ter uma vacina eficaz, possível para uso da população.

Alergo ar - As chuvas podem facilitar a ocorrência de dengue, uma vez que o acúmulo de água limpa em qualquer recipiente permite a proliferação do mosquito Aedes aegypti. É verdade que uma vacina contra os quatro tipos de dengue está sendo testada em humanos no Brasil?

Dr. Mauro Treistman - Há quatro tipos do vírus da dengue e esperamos ter uma vacina eficaz contra os quatro tipos (tetravalente). Há estudos na Fiocruz (RJ) para desenvolvimento e produção de vacina contra a dengue com tecnologia nacional. Testes em humanos devem iniciar a partir de 2012. Há vacina em fase mais avançada de estudo fora do Brasil, e talvez em cerca de dois anos, possa estar disponibilizada para uso na população. As duas são ótimas notícias.

Alergo ar - As enchentes aumentam os riscos de aquisição de doenças infecciosas transmitidas pela água, através do contato ou da ingestão. Quais são essas doenças e existem vacinas para elas? A vacinação regular contra estas doenças evita a contaminação?

Dr. Mauro Treistman - As doenças mais comuns e de maior risco no caso de uma enchente são doenças diarreicas transmitidas por água e alimentos contaminados, hepatite A, hepatite E (semelhante a hepatite A) e leptospirose. Destas, a única doença prevenível por imunização aplicável neste caso é a hepatite A. Entretanto, como são necessárias duas doses com intervalo de seis meses entre a primeira e segunda dose, não há indicação para uso durante uma situação de enchente, sendo necessário que as pessoas já estejam previamente vacinadas. Há outras doenças infecciosas que ocorrem com menor frequência nesta situação, como tétano em caso de ferimentos. A vacinação prévia seria o ideal, mas vacinação a partir deste momento associada a outras medidas, poderá também estar indicada.

Alergo ar - O tétano é causado pela contaminação de ferimentos. A vacinação em massa contra o tétano é uma medida útil? A pessoa com uma dose de vacina contra o tétano estará imunizada? Como é o esquema de imunização contra o tétano?

Dr. Mauro Treistman - O tétano é uma doença muito grave, com alto risco de morte, ocorrendo por vezes uma situação muito triste que é o tétano neonatal que acomete bebês nas primeiras semanas de vida. Temos vacina com alta eficácia e deve ser tomada durante toda a vida, não apenas na infância. As doses são indicadas com 2, 4 e 6 meses de vida, primeiro reforço entre 15 e 18 meses, segundo reforço entre 4 e 6 anos, e um reforço a cada 10 anos para toda a vida. Apesar deste ser o esquema indicado, caso ocorra alguma falha na vacinação, pode ser retomada as doses da vacina em qualquer momento da vida, garantindo então segurança a partir deste momento. Em gestantes e em casos de ferimentos mais graves, o médico deverá ser consultado para avaliar a necessidade de dose extra, ou tratamento complementar.

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