Casos de sarampo na Europa aumentam 400% em um ano

22/02/2018

O Globo

A Europa viu o número de casos de sarampo aumentarem 400% em 2017, em comparação com o ano anterior, divulgou a Organização Mundial da Saúde (OMS), classificando a situação como uma "tragédia" na saúde pública. Após uma baixa recorde em 2016, com 5.273 casos, o índice saltou para mais de 20 mil. Destes, 35 morreram.

Quinze países da Europa estão incluídos no surto. A Romênia lidera, com 5.562 ocorrências — um número que supera o total de casos em todo o continente no ano de 2016. Em seguida, vem a Itália, com 5.006 pessoas afetadas. A Ucrânia ocupa o terceiro lugar desse ranking, com 4.767 casos.

Movimento antivacina entre as causas

Segundo especialistas, parte do problema é causado por pessoas que evitam a vacinação, formando o chamado movimento antivacina.

A médica húngara Zsuzsanna Jakab, vinculada à OMS, destacou que esse movimento prejudica muito aqueles cidadãos que não podem se vacinar por conta de alguma doença imunossupressora ou de já terem sido transplantados, por exemplo. Quanto menos indivíduos vacinados, menos a população como um todo estará protegida.

— Toda nova pessoa afetada pelo sarampo na Europa nos lembra que crianças e adultos não vacinados, independentemente de onde vivem, correm o risco de contrair a doença e espalhá-la para outros que não podem se vacinar (por conta de alguma condição de saúde). — disse ela. — Este recuo não pode nos distanciar do nosso compromisso de ser a geração que vai libertar nossos filhos dessas doenças de uma vez por todas.

De acordo com a OMS, houve diminuição da cobertura geral de imunização de rotina ao longo do ano passado no continente europeu. Foi registrada também uma cobertura consistentemente baixa entre alguns grupos marginalizados da sociedade, e interrupções no fornecimento de vacinas ou sistemas de vigilância de doenças.

Problema continua este ano

Segundo a rede britânica "BBC", o problema continua este ano: até final de janeiro de 2018, havia 51 casos confirmados em West Midlands, região no Centro da Inglaterra que inclui as cidades de Birmingham, Wolverhampton e Coventry.

O sarampo é uma doença viral altamente infecciosa que pode ser mortal. Os sintomas aparecem apenas de 10 a 14 dias após a exposição. Entre os principais, estão tosse, coriza, olhos inflamados, dor de garganta, febre e erupção cutânea com manchas vermelhas.

Não há tratamento para se livrar de uma infecção de sarampo estabelecida, mas antitérmicos vendidos sem prescrição médica ou vitamina A podem aliviar os sintomas.

A doença é facilmente prevenida com vacina, que tem eficácia de 97%.

Política de imunização no Brasil

A presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Isabella Ballalai, ressalta que a preocupação da OMS vai além da população do continente europeu onde houve esse aumento brutal. Trata-se de uma questão de saúde mundial:

— Incluindo Brasil e outros países da América Latina, única região onde o sarampo foi eliminado. O aumento de casos em países muito visitados e onde há muita circulação de pessoas coloca em risco a erradicação da doença em todo o planeta, e isso é pior ainda.

Isabella lembra que a atenção para o aumento de casos de sarampo ligados à falta de vacinação não é nova. Em 1998, um artigo polêmico causou forte impacto no Reino Unido. Estudo do médico Andrew Wakefield publicado no “Lancet” relacionava a vacina tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba) ao autismo. O texto foi considerado um dos grandes motivos da não adesão à vacinação em boa parte dos países da Europa.

— Hoje, mesmo sabendo que esse artigo é fraudulento, continuamos com sequelas numa população europeia que tem medo da vacina — pontua a médica. — A única forma de o Brasil e as Américas manterem o status de “sarampo erradicado” é a manutenção das altas taxas de cobertura vacinal em crianças e adultos.

No Brasil, a política de imunização diz que as crianças devem tomar duas doses da tríplice viral. A primeira dose é com 1 ano de idade, e a segunda, entre 4 e 6 anos. Outra opção é a vacina tetra viral (que inclui o combate à varicela).

Bolsões sem cobertura

Já adultos e crianças mais velhas que não foram vacinados quando pequenos podem e devem tomar as doses em qualquer idade.

A cobertura vacinal do país, segundo Isabella, é em torno de 95%. Por outro lado, ela ressalta que é importante olhar município por município, bairro por bairro e assim por diante. Isso porque uma região de uma cidade pode ter boas coberturas, e outra, não. São os chamados bolsões. E essas situações acarretam riscos: geram surtos.

Foi o que aconteceu em 2013 e 2014 em Pernambuco e no Ceará, com a entrada de um vírus que teria sido “importado” da Europa. A mesma cepa que circula no continente e na Ásia infectou um brasileiro e encontrou na região uma população não vacinada.

— É preciso que haja o máximo de pessoas vacinadas: como meta, 95% de toda população de até 49 anos com as duas doses em dia — diz a médica.

Com relação ao movimento antivacina, Isabella afirma que ele é mais estruturado na Europa e nos Estados Unidos do que no Brasil. Isso não significa que deva ser ignorado:

— Temos que ficar atentos, trabalhar pela informação correta para a segurança da população. Vivemos um momento mundial de desconfiança. E o que buscamos fazer é ocupar esse espaço de comunicação de forma que as pessoas encontrem informações embasadas e éticas.

O Globo - 20/02/2018

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